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A Homeopatia na Prevenção e Tratamento da Dengue

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A Homeopatia pode ser útil como prevenção e tratamento para a Dengue? 

Dr. Lucas Franco Pacheco


 

A dengue é uma doença febril aguda causada por um arbovírus e transmitida por mosquitos do gênero Aedes, sendo o Aedes aegypti seu principal vetor. A infecção pode se apresentar nas formas assintomática ou sintomática. Estima-se que 390 milhões de pessoas sejam infectadas a cada ano, mas apenas 96 milhões apresentam manifestação clínica da doença. Estima-se que atualmente 2,5 bilhões de pessoas estejam sob o risco de infecção em todo o mundo e que 50 a 100 milhões de pessoas residentes em países tropicais infectem-se e desenvolvam a doença a cada ano.
Enquanto alguns ensaios clínicos são conduzidos para a busca de uma vacina para a dengue, as formas de prevenção disponíveis, em regiões onde há a circulação de um ou mais sorotipos, consistem em combates direto ao vetor, ações educativas e medidas de saneamento. Por outro lado, praticantes da homeopatia hahnemanniana sugerem que os medicamentos homeopáticos têm ação curativa e preventiva em doenças epidêmicas quando selecionados conforme o conjunto de sintomas peculiares à epidemia, o qual é denominado “gênio epidêmico”.
Considerando que a Homeopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde, Conselho Federal de Medicina (1980), Conselho Federal de Farmácia (1991), Conselho Federal de Medicina Veterinária (2001), Conselho Federal de Odontologia (2014), e seus medicamentos são regulamentados pela Anvisa, será que a Homeopatia poderia ajudar na profilaxia e tratamento contra a dengue utilizando sua base epistemológica do Gênio Epidêmico?

Vamos fazer um resgate histórico da utilização da Homeopatia pelas diversas epidemias:

Dr. Samuel Hahnemann, em 1799 utilizou a belladonna no controle de uma epidemia de escarlatina, posteriormente tratou uma epidemia de Tifo tendo conseguido aproximadamente 99% de sucesso nos resultados. A Homeopatia foi utilizada também nas seguintes epidemias:
Epidemia de cólera na Europa (1821-1834);
Epidemia de gripe espanhola (1918);
Epidemia de Tifo, Bahia, Brasil (1925-1926);
Profilaxia da meningite meningocócica, Guaratinguetá, SP (1974) – 18.640 doses, a incidência da doença na cidade ficou entre as menores do Estado de SP, com repercussão internacional.
Homeopathy,99:156-166, 2010: Em Cuba verificou-se que a intervenção homeopática permitiu uma diminuição significativa nas taxas de Leptospirose: Potencial hemoprofilático no controle de epidemias.
Petrópolis, Macaé (RJ) e Campo Grande (RS): Trabalho científico: Homeopatia para tratamento e prevenção da gripe H1N1 (int J High Dil Res, 12:125-126, 2013).

Na classificação hahnemanniana, a dengue, em sua forma clássica ou hemorrágica, caracteriza-se como uma doença “dinâmica, aguda e coletiva que ocorre nos indivíduos de uma população que se encontram suscetíveis e com predisposição mórbida”. Esse conceito conduz a uma abordagem terapêutica baseada na escolha de um medicamento que mais se assemelha à doença, ou seja, o chamado “gênio epidêmico da dengue”.
Na metodologia proposta por Kent, sugere-se a observação de pelo menos 20 pessoas com uma determinada doença, registrando-se todos os sintomas individuais e os relacionando, buscando-se assim a “totalidade sintomática”, ou seja, todas as manifestações sintomáticas individuais representariam o que é comum a todos os pacientes, permitindo-se eleger 7 ou 8 medicamentos que melhor abrangem a “totalidade sintomática”. Tais medicamentos formariam um “grupo de remédios epidêmicos”, que poderiam tratar a maioria dos casos de determinada doença.

Hahnemann, em seu clássico “Organon da Arte de Curar” (§241), descreve que “as epidemias de febre intermitente sob condições em que nenhuma é endêmica, são da natureza das doenças crônicas, compostas de uma única crise aguda; cada epidemia é de caráter peculiar, uniforme, comum a todos os indivíduos atacados, e quando este caráter se encontra na totalidade dos sintomas comuns a todos, leva-nos à descoberta do remédio homeopático adequado para todos os casos, que é quase universalmente utilizável nos pacientes de saúde mediana antes da epidemia […]”.

Leia Também: Homeopatia é placebo? Placebo effect sizes in homeopathic compared to conventional drugs – a systematic review of randomised controlled trials

Vejamos agora alguns trabalhos científicos envolvendo Homeopatia e Dengue:

• O estudo clínico duplo-cego aleatorizado e controlado por placebo foi conduzido em Honduras, sendo o tratamento homeopático composto por seis medicamentos — Aconitum, Belladonna, Bryonia, Eupatorium perfoliatum, Gelsemium e Rhus toxicodendron — combinados em uma potência 12Ch. Os 60 pacientes selecionados no estudo, todos com sinais e sintomas de dengue e idade acima de 12 anos, foram alocados de forma aleatória em 2 grupos, um de indivíduos tratados com o composto homeopático (n=29) e outro de indivíduos que receberam um placebo (n=31). No grupo que recebeu o medicamento, o tempo médio de duração de sintomas foi de 2,57 dias para febre e 3,46 dias para a dor (evidência de diminuição do tempo médio de duração dos sintomas).
• O estudo de Saeed-ul-Hassan et al.32 foi conduzido no Paquistão, incluindo 50 voluntários com sintomas de dengue divididos em 2 grupos. O primeiro grupo recebeu um tratamento homeopático composto por Bryonia alba, Rhus toxicodendron, Gelsemium sempervirens, Aconitum napellus, Eupatorium perfoliatum, Citrullus colocynthis, China boliviana, Hamamelis, Crotalus horridus e phosphorus. O segundo grupo recebeu o tratamento de rotina. Entretanto, o estudo não fornece informações sobre a aleatorização dos voluntários ou possíveis esquemas de cegamento, apenas descreve que sua condução obedeceu a critérios da Organização Mundial de Saúde. Os voluntários foram acompanhados por 6 dias, sendo obtidos diariamente valores de contagens de plaquetas, células brancas e hematócrito. A análise estatística utilizou vários testes t de Student para comparações das médias dessas variáveis em cada dia de acompanhamento, mas não foi conduzida uma análise longitudinal que comparasse os dados observados com os valores basais. Os autores mostraram evidências (expressas em valores p) de que a contagem média de plaquetas no 6º dia de acompanhamento era menor no Grupo Controle e o número médio de células brancas era maior no grupo tratado com a combinação de remédios homeopáticos.
• Entre os ensaios clínicos comunitários localizados, um deles descreveu a experiência do uso do medicamento homeopático Eupatorium perfoliatum em diluição 30CH em doses simples na cidade de São José do Rio Preto, estado de São Paulo, Brasil, no ano de 2001, como estratégia de prevenção da dengue. O medicamento foi oferecido a 1.959 moradores de uma área com grande incidência de dengue, sendo constatado que a redução dos sintomas da doença nesta área foi maior que a observada em 4 outras áreas da cidade. Nesse mesmo estudo, foi descrito que 20 mil doses de um complexo homeopático composto por Eupatorium perfoliatum, Phosphorus e Crotalus horridus, todos em diluição 30 cH e em dose simples, foram oferecidas à população da cidade. Em uma amostra de 524 indivíduos que tomaram o complexo homeopático, 384 (74%) não tiveram manifestações da doença.

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• Macaé, estado do Rio de Janeiro, Brasil, com população então estimada em 180 mil habitantes. Entre abril e maio de 2007, 156 mil doses de um complexo homeopático composto por Eupatorium perfoliatum, Phosphorus e Crotalus horridus (diluição 30 cH e em dose única) foram distribuídas gratuitamente aos moradores. Observou-se que a incidência da doença nos 3 primeiros meses de 2008 teve uma redução de 93% quando comparada ao mesmo período do ano anterior, enquanto no restante do estado do Rio de Janeiro houve um aumento de 128%. Esse mesmo estudo relata que o medicamento foi administrado a 129 indivíduos com sintomas da dengue, com finalidade terapêutica, que foram comparados a um grupo indefinido de pacientes que não receberam a homeopatia, observando-se que o tempo médio para recuperação foi menor entre os tratados.

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• Grüber-Matos (2000)/ Venezuela: Relatos de casos: Foram publicados quatro relatos de casos de pacientes adultos com dengue, com melhora significativa dos sintomas da dengue com tratamento Homeopático.
• Campanha Secretaria de Saúde de Goiás: Trabalho conjunto das secretarias Municipais de Saúde, com apoio do Ministério da Saúde ( portaria número: 971, 09/03/2006), foi realizado a profilaxia para Dengue com medicamento Homeopático em 22 cidades Goianas ( Atualmente o número de municípios do Estado de Goiás que aderiram ao programa subiu para 75 cidades).

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Finalizando esta publicação, gostaria de apresentar o posicionamento oficial da Associação Médica Homeopática Brasileira -AMHB, filiada à Associação Médica Brasileira (AMB) e Conselho Federal de Medicina (CFM) (para ler na íntegra, CLIQUE AQUI):

“…A homeopatia tem uma técnica específica para profilaxia e para tratamento de doenças epidêmicas, tendo sido o tratamento homeopático extensamente utilizado nos séculos XIX e XX no continente europeu e nos Estados Unidos em epidemias de tifo, cólera, difteria, escarlatina, malária e febre amarela, entre outras. Cabe destacar o fato histórico: o primeiro reconhecimento público da eficácia da homeopatia se deu com os resultados obtidos no tratamento de pacientes acometidos por tifo em uma epidemia. (DARUICHE, 2012)…” e depois continua: “… Enfim, se analisarmos os trabalhos existentes, como fizeram os autores da revisão, observamos: a) não há dados que neguem a hipótese da ação terapêutica ou profilática da homeopatia na dengue, ou seja, não há evidências fortes de que a homeopatia não contribua para o cuidado da dengue; b) há relatos com baixo nível de evidência indicando efetividade dos medicamentos homeopáticos na redução da incidência/melhora dos sintomas no nível local; c) ausência de relatos de efeitos adversos importantes, pelo que se pode inferir o grau de segurança do medicamento homeopático no auxílio à dengue; e d) os trabalhos pretendem uma ação complementar às medidas já instituídas para o cuidado dos pacientes com dengue, tanto no uso profilático, quanto no terapêutico…”.

Em seguida, apresenta o posicionamento da ANVISA:
“…Posição atual das instituições sanitárias brasileiras: O Ministério da Saúde lançou uma nota técnica (BRASIL, 2011) não apoiando o uso do tratamento homeopático em comunidades para o tratamento da dengue, por falta de evidências cientificas mais contundentes. Temia-se o relaxamento (por parte da comunidade) para com as medidas oficiais de prevenção à doença. Mas a ANVISA aprovou em 2008 o medicamento homeopático PRODEN® que tem como objetivo o tratamento da dengue (BRASIL, 2008), o que demonstra haver uma contradição entre as posturas das autoridades sanitárias no país a respeito do tema…”.

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Por fim apresenta o seguinte posicionamento oficial:

Posição atual da AMHB: Na dengue bem como nas doenças epidêmicas emergentes (Chicungunya e Zica) e re-emergentes (Dengue e Influenza), a Homeopatia preza pela individualização de cada caso por Médico Homeopata e na impossibilidade da individualização pode se
usar o recurso do gênio epidêmico e medicamentoso para cada comunidade afetada. No caso de grandes populações pode-se recomendar a utilização de uma medicação específica validada cientificamente pela ANVISA, conforme já referido nesta nota técnica.”

E a AMHB faz, então, as seguintes considerações finais (das quais eu sou totalmente favorável):

“Sendo a dengue uma doença para a qual não existe tratamento curativo nem preventivo medicamentoso, como vacinas e soros, até o momento, não haveria nenhum prejuízo em agregar de forma complementar o emprego de medicamentos homeopáticos autorizados para uso no país. Esta estratégia apresenta potencial para ser utilizada como mais uma opção de acesso aos usuários do sistema público de saúde em todo país, ainda que a sua utilização em epidemias demande a concordância com os gestores locais, presença de homeopatas na rede de saúde e parceria com a Vigilância Epidemiológica.
Por outro lado, fica a sugestão para que as autoridades sanitárias incentivem pesquisas no setor com financiamento suficiente e apoio técnico às iniciativas que já se mostram significativas (medicamento registrado na ANVISA, protocolo de pesquisa multicêntrico disponível e experiências locais em epidemias).”

 

Portanto, a Homeopatia não substituiu o combate ao vetor, as medidas sanitárias e de saneamento, mas surge como uma medida complementar, eficaz, barata, com baixos efeitos adversos, aprovada pela ANVISA (PRODEN®), se utilizada sob a supervisão do profissional médico homeopata, em uma população conhecida, em que seja possível realizar seu acompanhamento.

 

Autor: Dr. Lucas Franco Pacheco, Médico com título de especialista em Homeopatia pela AMHB-AMB.

site: www.doutorlucashomeopatia.com.br